Ucrânia: Kremlin não quis converter jornalista russa em mártir, diz ONG

15/03/2022

“Habitualmente a repressão é muito mais dura, mas, sem dúvida que o Kremlin quer banalizar esta ação e não fazer de Marina Ovsianikova uma mártir”, disse à agência noticiosa EFE o secretário-geral da Organização Não Governamental (ONG), Christophe Deloire.

A jornalista russa, que protestou em direto na televisão estatal contra a guerra na Ucrânia e foi hoje julgada por “manifestação ilegal” num tribunal moscovita, foi condenada ao pagamento de uma multa e libertada.

Considerada culpada de ter cometido “uma infração administrativa” – por ter irrompido, na segunda-feira, no noticiário mais visto da televisão russa, com um cartaz protestando contra a guerra na Ucrânia e a propaganda da imprensa controlada pelo Kremlin -, Marina Ovsyannikova deverá pagar uma multa de 30.000 rublos (cerca de 250 euros).

“Mas é uma condenação a título administrativo. Não sabemos o que vai acontecer a seguir. Pode haver ainda um processo penal”, acrescentou o dirigente da RSF.

As imagens da sua intervenção em direto no jornal da noite do Pervy Kanal correram mundo, e muitos internautas saudaram o seu ato de uma “coragem extraordinária” num contexto de repressão impiedosa contra qualquer voz crítica na Rússia.

Na opinião de Christophe Deloire, esta primeira decisão positiva pode ler-se também no contexto interno: “Começa a haver mau estar em meios de comunicação social oficial russos, jornalistas que acreditam que desta vez se foi demasiado longe. Talvez [esta decisão] seja uma forma de não crispar mais ainda as redações, e os colaboradores dos meios do próprio regime russo”.

Para Deloire, a libertação rápida decretada hoje também procura enviar uma mensagem à comunidade internacional “dizendo, vejam, temos uma verdadeira justiça, não reprimimos, portanto o que vocês dizem é falso”.

Também hoje, a cadeia norte-americana Fox News anunciou a morte, na região de Kiev, do seu operador de câmara Pierre Zakrzewski, de 52 anos, durante a cobertura da guerra onde foi ferido o seu companheiro, Benjamin Hall.

Contando com Zakrzewski, já foram confirmados pelo menos quatro jornalistas mortos no conflito ucraniano, segundo a comissária dos Direitos Humanos do Parlamento da Ucrânia, Liudmyla Denisova, que responsabilizou as tropas russas.

A RSF abriu no sábado um novo centro em Leópolis, no oeste da Ucrânia, destinado a apoiar jornalistas em perigo, para que os meios de comunicação ucranianos independentes possam continuar a trabalhar, contornando a censura.

Deloire recordou o apelo a todos os países beligerantes em geral, “e, evidentemente a Rússia, potência agressora”, para respeitarem a resolução 2222 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas sobre a proteção de jornalistas a trabalhar em cenários de conflito armado.

A Rússia lançou na madrugada de 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que causou já a fuga de 4,8 milhões de pessoas, mais de três milhões das quais para os países vizinhos, de acordo com os mais recentes dados da ONU — a pior crise na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, e muitos países e organizações impuseram à Rússia sanções que atingem praticamente todos os setores, da banca ao desporto.

A guerra na Ucrânia, que entrou hoje no 20.º dia, causou um número ainda por determinar de mortos e feridos, que poderá ser da ordem dos milhares.

Embora admitindo que “os números reais são consideravelmente mais elevados”, a ONU confirmou hoje pelo menos 691 mortos e 1.143 feridos entre a população civil, incluindo mais de uma centena de crianças.


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