Ucrânia: Crianças institucionalizadas também fogem à guerra

14/03/2022

Foi isto que Halina Jovik, a diretora da instituição, a enfermeira e a educadora que a acompanharam até à Polónia contaram às crianças mais pequenas do grupo, constituído por menores entre os três e os 17 anos.

Antes desta partida em “férias para conhecer meninos da Polónia”, já tinham feito um jogo durante dois dias na instituição em que viviam, em Kovel, no norte da Ucrânia: quando soava uma sirene, iam todos brincar às escondidas na cave.

“Espalhem a notícia por toda a Europa: é preciso fechar o céu [da Ucrânia] para parar os bombardeamentos e retirar pelo menos as crianças e as mulheres”, disse no domingo Halana Jovik, com a voz perturbada pela comoção, a um grupo de jornalistas de várias nacionalidades, na cidade polaca de Lodz, que fica a 140 quilómetros de Varsóvia.

Halana Jovik, que deixou os dois filhos, uma rapariga e um rapaz, de 29 e 30 anos, a lutar no exército ucraniano, disse que hospitais, orfanatos e serviços públicos em geral estão no foco dos bombardeamentos da Rússia desde que invadiu a Ucrânia no dia 24 de fevereiro.

Nesta guerra, já morreram pelo menos 85 crianças e uma centena ficou ferida, segundo revelou este domingo a Procuradoria-Geral ucraniana. A maioria das vítimas é das regiões de Kiev, Kharkiv, Donetsk, Sumy, Kherson, Mikolaiv e Zitomir, todas no norte, leste e sul do país.

Os bombardeamentos das tropas russas já danificaram 369 instituições de ensino, 57 das quais foram completamente destruídas, segundo a mesma fonte.

Halina Jovik sublinhou que “não há medicamentos nem água nas cidades” e as instituições que acolhem crianças nas zonas sob ofensiva russa abandonaram “ou precisam de sair” da Ucrânia, havendo já grupos de menores em vários países vizinhos, como a República Checa ou a Lituânia, além da Polónia.

Depois de cruzar a fronteira a pé, o grupo de Halina Jovik e um outro, de outra instituição, tinham dois autocarros à espera, disponibilizados pela Fundação Happy Kids, polaca, que nas últimas duas semanas já retirou centenas de crianças institucionalizadas da Ucrânia.

Foram diretamente para Lodz, para um edifício que havia funcionado até há pouco tempo como espaço de acolhimento de crianças institucionalizadas e onde hoje estão a viver 94 menores ucranianos e respetivas educadoras, vindos de diferentes pontos da Ucrânia em guerra.

A presidente da câmara de Lodz, Hanna Zdanowska, espera em breve ter mais 17 bebés ucranianos na cidade, que estão ainda em Kiev, “a viver numa cave” e que “precisam de assistência médica”.

Sem querer avançar muitos pormenores aos jornalistas, disse apenas, este domingo, que tem cinco ambulâncias preparadas para os recolher na fronteira e que pensa que “nas próximas horas” possam sair da capital ucraniana. Isto apesar da incerteza gerada por bombardeamentos russos, no domingo, no oeste da Ucrânia, a 25 quilómetros da fronteira com a Polónia.

São as relações próximas de longos anos entre municípios polacos e ucranianos que estão a fazer de Lodz um destino de acolhimento de crianças institucionalizadas e um centro de receção e encaminhamento para dentro da Ucrânia de ajuda humanitária, segundo Hanna Zdanowska.

Além disso, como a generalidade da Polónia, é também cidade de acolhimento de famílias refugiadas, sobretudo, mulheres e crianças.

Dos cerca de 2,6 milhões de refugiados ucranianos que o ataque russo já fez, 1,5 milhões foi para a Polónia. A autarca de Lodz estima que 100 mil estejam na cidade, que escolheram, sobretudo, por ser onde já viviam familiares e amigos. Antes da guerra, residiam em Lodz entre 60 e 70 mil ucranianos.

Nas escolas e creches da cidade, estão já inscritas cerca de 1.600 crianças fugidas à guerra, o que Hanna estima ser um número residual do total de menores que estão refugiados no município, por “as mães estarem ainda com a cabeça emocionalmente na Ucrânia” e com uma provável esperança de regresso em breve.

Na sexta-feira, o ministro da Educação da Polónia, Przemyslaw Czarnek, disse que havia já 24 mil filhos de refugiados da Ucrânia nas escolas e creches do país, sendo que o número total de crianças fugidas à guerra deve alcançar os 700 mil só entre os que estão em território polaco.

O ministro, citado pelos meios de comunicação da Polónia, pediu aos governantes locais e regionais para criarem secções especiais nas escolas para acolherem estas crianças, que assim terão acesso a um ambiente normalizado.

É isso que está preparada para fazer a autarca de Lodz, que estima que haja dez ou vinte mil crianças refugiadas na cidade atualmente. Serão integradas nas escolas, em turmas do ensino regular polaco ou outras especiais, com professores ucranianos, “se isso for necessário”, garantiu aos jornalistas, antes de acrescentar: “Estamos todos em guerra, não é apenas a Ucrânia”.


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