Ricardo Peres realça contributo de Paulo Bento na Coreia

01/12/2022

“Acredito que, se fecharem aqui um ciclo, qualquer que seja o resultado [no Qatar], fecha-se um ciclo positivo. Acima de tudo, pela imagem que o Paulo Bento passa em todos os seus projetos. As pessoas podem ter a sua opinião sobre se ele é bom treinador ou não, mas acho que a esmagadora maioria tem a correta ideia de como é como ser humano”, frisou à agência Lusa o técnico, de 46 anos, que já coadjuvou o ex-selecionador nacional e orientou o Busan IPark, da II Liga sul-coreana, de novembro de 2020 a junho de 2022.

Paulo Bento, de 53 anos, rendeu Shin Tae-yong em 2018 e tornou-se o segundo luso a comandar a Coreia do Sul, após o também ex-selecionador nacional Humberto Coelho (2003-2004), tendo já quebrado os recordes de longevidade (55 jogos) e de vitórias (34, mais 13 derrotas e oito empates) no cargo, numa altura em que está em fim de contrato.

“Futuro depois do Qatar? Não faço a mínima ideia. Essa é uma pergunta que terá de ser feita ao Paulo Bento. Acredito que, se ele e a Associação de Futebol da Coreia quiserem, pode continuar no cargo. Não tem sido um trabalho fácil de se fazer com uma qualidade individual não elevada ao longo destes quatro anos, mas esta equipa técnica tem trazido muita qualidade coletiva, espírito e valores que são apanágio da cultura coreana”, notou.

Ricardo Peres diz que o estilo vigente nos clubes do principal escalão reflete o “impacto grande” deixado naquele país asiático pelo antigo médio internacional português, que já auxiliou como treinador de guarda-redes do Sporting (2004-2009), da seleção lusa ‘AA’ (2010-2014), dos brasileiros do Cruzeiro (2016) e dos gregos do Olympiacos (2016/17).

“Os clubes veem que os seus melhores jogadores são capazes de jogar de uma maneira positiva e ao ataque, mas também defendem, sofrem, pegam no jogo e correm atrás do resultado quando precisam. Estes últimos dois jogos foram o exemplo disso”, constatou, aludindo ao ‘nulo’ com o Uruguai (0-0) e à derrota frente ao Gana (2-3) no Mundial2022.

A 11.ª presença, e 10.ª seguida, da Coreia do Sul na prova tem sido condicionada pelas limitações físicas do avançado e ‘capitão’ Heung-min Son, que se lesionou no último mês num jogo dos ingleses do Tottenham e teve de fazer uma intervenção cirúrgica ao rosto.

Se a ‘estrela’ dos ‘guerreiros do Taegeuk’ foi totalista nas duas jornadas iniciais, Kim Min-jae, defesa do Nápoles, líder isolado da Liga italiana, manifestou queixas musculares nos gémeos e deixou em tempo de compensação a partida com os ganeses, ao passo que o dianteiro Hwang Hee-chan, dos ingleses do Wolverhampton, ainda nem somou minutos.

“Numa seleção que não tem um grupo grande de atletas de elevadíssima qualidade, tal como tem Portugal, sente-se imediatamente o impacto gerado pela ausência de qualquer nome desse lote. A Coreia do Sul tem mostrado uma força coletiva muito grande, mesmo sem ter o seu melhor futebolista nas melhores condições. Depois, Kim Min-jae, que, para mim, será um dos melhores centrais do mundo, tem jogado em pleno sacrifício”, contou.

Quarto ‘artilheiro’ de sempre da seleção, com 35 golos em 106 jogos, Heung-min Son, de 30 anos, lidera o contingente de oito dos 26 atletas convocados por Paulo Bento a atuar no continente europeu, corporizando “uma referência e um exemplo para todos” no país.

“Existe uma necessidade enorme de idolatrar referências na cultura sul-coreana. Quando uma pessoa estabelece uma referência para si próprio, há uma quase devoção total a esse ídolo. É o que se passa com o Heung-min Son ou o Hwang Hee-chan e se passará agora com os dois golos que o Cho Gue-sung fez [ao Gana]”, descreveu Ricardo Peres, com destaque para o avançado do Jeonbuk Motors, de 24 anos, que se sagrou o melhor marcador da edição 2022 do campeonato local e tem sido ‘fenómeno’ nas redes sociais.

Essa tendência para a idolatria alastra-se a “outras áreas” da sociedade, como a ‘K-pop’ (música popular coreana), numa nação em que “o futebol não é a modalidade mais forte, mas caminha para poder ombrear com o beisebol”, face “à influência norte-americana”.

“Estes jogadores que têm sido utilizados em campeonatos com impacto mundial, como a Liga inglesa, geram um impacto muito grande na cultura coreana, mediante o que fazem. Há muitos jovens a irem para o futebol simplesmente por causa do Heung-min Son, do Hwang Hee-chan ou do Kim Min-jae, que são referências a nível mundial. Como aquele país apanha a cultura de referência individual, isso faz aumentar o futebol ali”, concluiu.

José Morais sagrou-se bicampeão da K-League pelo Jeonbuk Motors (2019 e 2020) e ampliou uma marca portuguesa popularizada nos estádios da Coreia do Sul pelo antigo médio Ricardo Nascimento, cuja passagem pelo FC Seul ficou eternizada (2005-2007).

Sem Paulo Bento no banco, devido a suspensão, os asiáticos vão procurar uma terceira presença nas eliminatórias do Mundial, na linha de 2010 (oitavos de final) e 2002 (quarto lugar, em casa), edição em que afastaram a equipa das ‘quinas’ logo na fase de grupos.

Portugal, já apurado para os ‘oitavos’ e a um empate de selar o primeiro lugar, encara a Coreia do Sul, na sexta-feira, às 18:00 locais (15:00 em Lisboa), no Estádio Education City, em Al Rayyan, no Qatar, na terceira e última jornada do Grupo H do Mundial2022.

Uruguai e Gana defrontam-se em simultâneo, em Al Wakrah, com a equipa das ‘quinas’ isolada no topo, com seis pontos, contra três dos africanos, que estão no segundo lugar, também de acesso à fase seguinte, enquanto sul-americanos e asiáticos têm um ponto.

 


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