Ponta Delgada. Pandemia "trocou as voltas" a comerciantes no Carnaval

24/02/2022

“A pandemia trocou-nos as voltas. Há dois anos que não há bailes [de gala] de Carnaval, nem na passagem de ano. Isto foi uma quebra muito grande. Mais no Carnaval”, afirmou à agência Lusa Cecília Pereira, proprietária de um ateliê de costura, no centro histórico de Ponta Delgada.

No Carnaval, um pouco por toda a ilha de São Miguel, eram vários os bailes que decorriam em associações, hotéis ou clubes privados e que reuniam centenas de pessoas até ao amanhecer.

Era o caso do Coliseu Micaelense, na cidade de Ponta Delgada, onde os célebres bailes de gala chegaram a ser três, entre as noites de sexta-feira e segunda-feira de Carnaval, sempre com casa cheia no imóvel do início do século XX.

As mulheres trajavam vestido comprido e os homens usavam ‘smoking’.

Os bailes exigiam uma ida à costureira para um vestido novo ou reciclar um guardado.

Além de clientes particulares, o ateliê de Cecília Pereira dá assistência a três lojas, pelo que estava habituada a “trabalhar dia e noite”.

“As clientes queriam sempre inovar para os bailes. Fazia vestidos de baile, como também muitos arranjos noutros vestidos, também para os bailes”, disse.

Antes da pandemia, quando “acabava o mês de dezembro, começava logo a confeção dos vestidos de baile de Carnaval”, recorda a costureira.

A confeção de um vestido de baile personalizado oscilava “entre os 80 a 90 euros”, segundo Cecília Pereira, confidenciando que sentiu uma “quebra estrondosa” de clientes, igualmente devido ao cancelamento de “muitos batizados e casamentos”.

Também Nélia Sousa, proprietária de um ateliê de costura desde 2006, teria por esta época “muitos vestidos de cerimónia e ‘smokings’ para acertos”, ou “para reciclar o que estava guardado de um ano para o outro”, admitindo que pelo Carnaval “aparecia sempre mais trabalho”.

“Tirava-se uma renda e colocava-se um laço. Faziam-se bainhas. Apertava-se um vestido. Alargava-se um ‘smoking’ que estava arrumado de um ano para o outro e nem sempre estava ao gosto do cliente”, contou à Lusa a costureira.

Todos os anos, “as pessoas pediam coisas originais para os bailes e havia que puxar pela cabeça”, lembra, entre risos.

Há três anos, antes da pandemia, Nélia Sousa chegou a fazer “uma direta”, ficou sem dormir “para acabar os fatos para um cortejo de Carnaval”.

Sem bailes de Carnaval, os comerciantes viram também os seus negócios afetados.

“As pessoas vinham aqui compravam os tecidos, ou até vestidos que depois adaptavam. Não há bailes – nem de passagem de ano, nem de Carnaval. Isto mexeu com o negócio”, lamentou à Lusa Rui Martins, proprietário de uma loja no centro da cidade de Ponta Delgada.

Rui Martins recordou com alguma “nostalgia” as semanas que antecediam os bailes do Coliseu.

“Vendíamos ‘smokings’. Laços para os fatos, faixas. Agora, com a pandemia, nada. Está fraco. Os ‘smokings’ só vendo para um casamento. E pouco. Até deixei de comprar ao fornecedor”, disse o empresário, recordando que no Carnaval eram realizados bailes “pela ilha toda de São Miguel”.

A juntar à crise provocada pela pandemia, “vieram as vendas pela internet”, lamentou.

O testemunho é partilhado pela colaboradora de um outro estabelecimento comercial da cidade de Ponta Delgada.

“Sentimos bastante diferença, não só no Carnaval, porque não há bailes há dois anos, como também na passagem de ano”, afirmou Carolina Correia.

Além das roupas de gala, os bailes eram sinónimo de uma ida ao cabeleireiro, à manicure ou maquilhadora, um negócio que também se ressentiu com o cancelamento dos eventos de Carnaval.

“As pessoas vinham ao cabeleireiro de propósito para os bailes. Notámos um decréscimo de clientes”, assinalou à Lusa Vitor Santos, proprietário de um salão de cabeleireiro onde são também disponibilizados serviços de manicure e esteticista.

“Há dois anos que não há Coliseu. Também não há passagem de ano. Com o aliviar das restrições vai indo o negócio”, referiu Vitor Santos.

Cátia Botelho, de um instituto de beleza em Ponta Delgada, contou que, na época dos bailes de Carnaval, chegavam a alargar o horário até às 20:00.

“Eram sempre dias muito movimentados para a manicure e maquilhagem”, explicou à Lusa, relatando que as clientes pediam pinturas “específicas” para o vestido de gala que iam usar.


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