Mundo perdeu 10 milhões de empregos nas indústrias criativas em 2020

08/02/2022

Trata-se de “um colapso sem precedentes no rendimento e emprego” nestes setores, revela o documento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês), intitulado “Re|Shaping Policies for Creativity” (“Redesenhando Políticas para a Criatividade”, em tradução livre).

O estudo estima que o Valor Acrescentado Bruto nas indústrias culturais e criativas contraiu cerca de 750 mil milhões de dólares (cerca de 656 mil milhões de euros) em 2020, primeiro ano da pandemia, e que o seu rendimento caiu entre 20 a 40% nos países onde existem dados estatísticos disponíveis.

Por outro lado, os gastos públicos a nível mundial nestas áreas tinham já entrado em declínio nos anos antes da eclosão do vírus, o que levou a “um colapso sem precedentes no rendimento e emprego nestes setores, ampliando as já precárias condições de trabalho de muitos artistas e outros profissionais da cultura em todo o mundo”.

O relatório conclui ainda que esta crise limitou a capacidade do setor cultural – que ascende a 3,1% do Produto Interno Bruto global e 6,2% de todo o emprego – de promover um crescimento económico sustentável nos países em desenvolvimento.

“Emergiu um paradoxo básico: as populações têm cada vez maior acesso aos produtos e conteúdos culturais, mas, ao mesmo tempo, aqueles que criam arte e cultura têm cada vez mais dificuldade em trabalhar”, resumiu Ernesto Ottone R., diretor-geral adjunto da Cultura da UNESCO.

A pandemia afetou também o potencial do setor para gerar crescimento económico, “algo que já é demasiadas vezes subestimado”.

Além disso, a rede de segurança social dos artistas, em muitos países, já era inadequada, mas a crise pandémica veio expor “a situação vulnerável dos profissionais das áreas da cultura e da criatividade”.

Para contrariar esta tendência e lidar com os desafios da crise global, a organização internacional defende que as políticas de apoio às indústrias criativas devem ser reformuladas para dar a devida proteção, porque “o seu valor intrínseco gera coesão social, recursos educativos e bem-estar pessoal em tempos críticos”.

“Temos de repensar como podemos construir um ambiente de trabalho sustentável e inclusivo para os artistas e agentes culturais que desempenham um papel vital na sociedade, em todo o mundo”, apelou.

O relatório urge os governos a garantir medidas sociais e económicas de proteção para os artistas e profissionais da cultura, propondo, por exemplo, estabelecer um salário mínimo no emprego cultural, bem como seguros de saúde e melhores pensões por reforma para os trabalhadores independentes.

O documento apontou ainda que, com o aceleramento da transformação digital, colocando cada vez mais conteúdos em plataformas ´online´, “será necessário garantir um sistema de remunerações justas para os artistas que criam estes produtos e serviços”, face à “quebra de rendimento por diminuição de eventos ao vivo”.

A UNESCO fala ainda da “persistência de grande disparidade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento”, e de “desigualdades muito fortes nos setores culturais e criativos enfrentadas por muitas mulheres”.

Outra das conclusões do relatório sobre o impacto da pandemia indica que “restringiu muito o acesso das populações à diversidade das expressões culturais por todo o mundo, numa altura em que a diversidade é ainda mais necessária como elemento estruturante para a coesão social e a paz entre os povos”.

Neste aspeto, a UNESCO recorda a Convenção para a Proteção e Promoção da Diversidade e Expressões Culturais, lançada pela organização internacional em 2005.


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