Jornalismo precisa que leitores "voltem a confiar"

13/11/2022

Em entrevista à Lusa, à margem de um encontro sobre o acolhimento de migrantes nas cidades e o papel dos jornalistas no combate ao discurso de ódio, Milica Pesic salientou que recuperar esta confiança no jornalismo tradicional, aquele que verifica os factos, leva tempo, mas não é impossível.

“Temos que ser pacientes, porque, se alguma coisa importa na democracia, é realmente um jornalismo muito confiável, em que o público possa realmente confiar. Se não confiarmos, como cidadãos, nos meios de comunicação social, não podemos tomar as decisões certas quando as eleições chegarem”, disse.

O Media Diversity Institute (MDI), com sede em Londres, é uma reconhecida organização não-governamental que trabalha com diversos organismos oficiais e de jornalismo em todo o mundo para incentivar a diversidade e a inclusão, combater estereótipos e a desinformação nos órgãos de comunicação social.

A responsável salientou que este não é um problema específico de Portugal, dos EUA ou do Brasil, onde nas últimas eleições presidenciais se estima que milhões de cidadãos confiaram na informação não verificada e em rumores divulgados nas redes sociais para optarem entre os candidatos.

“É um desafio global”, considerou, salientando que “políticos habilidosos” sabem chegar às pessoas através de processos neuropsicológicos “e fizeram muita lavagem cerebral”, pelo que jornalistas e responsáveis dos ‘media’ de todos os países precisam de unir-se contra a desinformação.

“Nós, jornalistas, precisamos de ver como chegar outra vez a essas pessoas. Ver como conseguiremos que as pessoas consultem primeiro o jornalismo confiável do que as redes sociais. É um processo. Leva tempo”, acrescentou.

Em primeiro lugar, Milica Pesic aconselha os jornalistas a adaptarem-se a esta nova situação, aprenderem sobre novas formas confiáveis de chegar aos leitores e ouvintes através das novas tecnologias, e criticou a proximidade que os jornalistas têm dos centros do poder.

“Nós, jornalistas, muitos de nós e os nossos editores e os proprietários de meios de comunicação, aproximámo-nos muito das autoridades, dos governos, seja voluntariamente ou por falta de democracia. Então temos que tentar distanciar-nos do governo e voltar ao que é nosso papel primordial, que é responsabilizar as autoridades, não apenas divulgando o que eles ou o seu pessoal de relações públicas disseram, mas esclarecer realmente por que é que eles fizeram aquela afirmação”, sublinhou.

“E verificar, verificar, verificar sempre todos os factos”, acrescentou.

Milica Pesic realçou que, “neste momento, os extremistas de extrema-direita estão a ganhar, sequestraram toda a terminologia liberal”, mas os jornalistas têm de “procurar a terminologia certa” e “dar luta” à desinformação.

Pesic admitiu que as agências noticiosas têm um problema suplementar neste combate, porque produzem conteúdos e perdem o controlo assim que esta informação chega ao cliente, outros órgãos de comunicação, que pode “alterar, mudar o título, ou até introduzir outro tipo de manchete que até pode mudar o significado”.

Porém, considera que vale a pena restabelecer a confiança com os consumidores e a melhor maneira é começar a falar diretamente com o público, perceber o que ele espera e o que quer saber.

“Convide uma amostra ou várias amostras de leitores para a sua redação ou para a sua rádio ou qualquer outro lugar. Comece a construir a confiança. Peça que lhe contem o que está a acontecer na sua comunidade. Diga-lhes como o que está a planear fazer. Visite comunidades diferentes, conversando com as pessoas sem escrever história nenhuma, apenas para construir a confiança”, disse.

A diretora do MDI considerou também ser necessário alfabetização em informação através da comunicação social desde as escolas.

Por um lado, qualquer criança é melhor a utilizar os meios digitais do que um adulto, por outro lado as pessoas com mais de 65 anos “são os eleitores mais comprometidos, que costumam votar em partidos conservadores ou partidos que já estão no poder”, mas também são os que menos conseguem selecionar informação veiculada nas redes sociais, “o que é perigoso”, salientou.

Quanto ao discurso de ódio contra migrantes e refugiados veiculado sobretudo nas redes sociais, um dos principais temas do “4.º Fórum Europeu de Diálogo Político”, que a levou a Barcelona, considerou que a melhor forma de integrar essas comunidades é integrar essas pessoas no discurso, em vez de fazer trabalhos sobre as realidades de cada comunidade, o que também acaba por as segregar.

“É preciso incluir as pessoas nos trabalhos sobre a saúde, a educação ou outro tema. Elas vivem naquela cidade e têm os mesmos problemas de todas as outras pessoas quanto a esses temas. É preciso dar-lhes esta voz, envolvê-los nas questões que dizem respeito a quem ali vive, a quem faz parte do país”, considerou.

O “4.º Fórum Europeu de Diálogo Político”, sob o tema “Inclusão Social nas Cidades”, foi uma iniciativa do Centro de Diálogo Internacional — KAICIID, do Observatório de Media, Cultura e Religião de Blanquerna e da plataforma Network for Dialogue.

Leia Também: Nobel da Paz denuncia “genocídio” do jornalismo independente russo


Opnião dos Leitores

Leave a Reply

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *



Faixa Atual

Título

Artista