Ajuda militar a separatistas pode ser "início do fim" do conflito

22/02/2022

Para esta investigadora do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, especialista em espaço pós-soviético, este cenário de ajuda militar aos territórios separatistas sempre esteve na agenda do Presidente russo, Vladimir Putin, e pode constituir, para já, o cenário em que o Kremlin “congela a situação” da crise ucraniana.

Embora Raquel Freire não exclua a possibilidade de ainda haver uma escalada de tensão — nomeadamente se Moscovo decidir tentar ocupar todo o território das províncias de Donetsk e Lugansk e não apenas o espaço controlado pelas forças separatistas pró-Rússia –, admite como hipótese mais provável que o Kremlin prefira, no imediato, manter a pressão política com uma presença militar em parte da região de Donbass.

“Isto dá à Rússia três vantagens: conseguir uma posição de força nas suas fronteiras, limitar a soberania da Ucrânia e poder reclamar uma vitória nesta crise”, explicou a investigadora, professora catedrática de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra.

Se o Kremlin ficar por aqui e não tentar uma escalada militar de maior dimensão, deverá ter de sofrer um “pacote intermédio de sanções” por parte do Ocidente, admite Raquel Freire, reconhecendo que pode ser uma situação aceitável pelo Kremlin.

De igual forma, “se não houver a tentação de uma invasão russa de larga escala, o Governo ucraniano poderá não reagir militarmente”, acrescentou a investigadora, que acredita que Kiev poderá tentar continuar a sua estratégia de diálogo relativamente aos territórios ocupados, mesmo que agora com uma presença militar russa na região.

“Kiev sempre teve uma posição de procura de negociação relativamente a Donetsk e a Lugansk. Se a Rússia não procurar ocupar as zonas sob controlo ucraniano, Kiev manterá a mesma postura, sem precisar do recurso a um conflito militar”, explicou Raquel Freire.

Contudo, a investigadora não exclui o cenário de o Kremlin optar por uma atitude mais agressiva, tornando a situação mais imprevisível, o que pode conduzir a uma guerra de larga escala.

O Presidente russo assinou, na segunda-feira à noite, um decreto que reconhece as regiões separatistas de Lugansk e de Donetsk, no Donbass (leste), e ordenou a entrada das forças armadas russas naqueles territórios ucranianos numa missão de “manutenção da paz”.

O Kremlin clarificou hoje que reconheceu a independência das regiões do leste da Ucrânia nas fronteiras de quando estas proclamaram esse estatuto em 2014, o que inclui território atualmente detido pelas forças ucranianas.

A decisão de Vladimir Putin foi condenada pela generalidade dos países ocidentais, que temiam há meses que a Rússia invadisse novamente a Ucrânia, depois de ter anexado a península ucraniana da Crimeia em 2014.

Nesse ano, começou a guerra no Donbass entre os ucranianos e os separatistas pró-russos de Donetsk e Lugansk apoiados por Moscovo, que provocou, desde então, mais de 14.000 mortos e 1,5 milhões de deslocados, segundo a ONU.


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